os mais interessantes contos de Avlis e Sot'nas
Agora abrindo o espaço com grande estilo... nós como artistas que somos não poderíamos de deixar de publicar esta "fábula" do nosso grande amigo Santiago César Santiago
Fábula de um ator-mentado*
Certo dia me deparei com um anúncio um tanto quanto desesperador nos classificados de um jornal de quinta:
VENDE-SE UM ATOR-MENTADO, FORMADO EM ARTES TEATRAIS, DANÇA E FLUÊNCIA CÊNICA. EXPERIÊNCIA COMPROVADA EM ESPETÁCULOS. CONTATO PELO CELULAR [tal].
Por trabalhar com arte, tal venda me despertou interesse e resolvi ligar para saber o que levou tal pessoa a uma situação tão extrema.
De uma primeira vez, o número caiu direto numa caixa postal. Imaginei que aquela poderia ser alguma brincadeira de calouro, ou alguém pondo à prova a paciência de algum idiota que pudesse realmente ligar pra tal número.
De uma segunda vez, atende, para minha surpresa, uma mulher dizendo nada ter a ver com o anúncio, porém teve a boa vontade de me passar o novo número do antigo proprietário do celular que agora pertencia a ela.
Liguei então para o novo número, na esperança ainda de matar minha curiosidade de saber quem era esse “artista-produto”, que chegou ao ponto de oferecer seus serviços de forma tão direta em um classificado.
Tive sorte ao primeiro toque atender. Seu nome era Eduardo Eugênio Cândido Siqueira. E toda opulência de seu nome confirmava o que dizia no anúncio. Ele era realmente formado em artes cênicas com habilidades em dança e canto, com vasta experiência em palcos.
Marcamos mais tarde um café numa padaria qualquer de esquina para conversarmos melhor.
Chegando lá, durante toda a conversa em meio a pastas, fotos e recortes de jornal, pude perceber verdade e que ali realmente existia conteúdo. Em sua narrativa, além de me contar suas experiências cênicas, falou um pouco da sua insatisfação e, principalmente, da sua necessidade em tomar atitude extremas como sua venda. “- Preciso defender meu ganha-pão. A forma como eu faço isso, desde que seja digna, não me importa”. DIGNIDADE. O cara tocou num ponto que o qualificou em 100% em nossa aproximada 1 hora de conversa. E não só isso: seus argumentos, a forma de se posicionar e até mesmo um all-star velho no pé mostravam que ali tinha uma pessoa de personalidade batalhando por um ideal.
E dessa conversa toda, pude perceber como a sociedade desqualifica a arte ou ao menos a acha linda, mas não dá seu devido valor. Percebi que a história desse ator-mentado era o reflexo de muitos outros ativistas de arte que não conseguiam espaço, sendo obrigados a radicalizarem e trabalharem por qualquer trocado.
Daí, várias questões me vieram à tona e questionei quem seria o real culpado dessa realidade. De fato, a falta de incentivo às questões culturais ainda é uma realidade. E por mais que se apresentem profissionais qualificados, muito pouco se paga por cultura. Contraditório pra quem entende cultura como premissa fundamental na formação de um cidadão, mas em contraponto, o artista tem parte fundamental dessa culpa por não se posicionar, se valorizar como profissional e mostrar que seu trabalho é importante tanto quanto outros bem remunerados. E olha que no “Texas Brasileiro” o que não falta é gente ganhando muito para se fazer nada.
Por fim, terminamos o café sem muitas novidades. O retrato desse artista, pra mim, foi uma novidade apenas por questão de abordagem, pois nunca tivera visto anúncio de tal espécie no jornal. Mas a sua história se equivale a muitas outras, de pessoas que estão muito próximas e tem a arte como sobrevivência. E que sobrevivência!
* ATOR-MENTADO: título de uma comédia escrita por Rodrigo Rangel e Afonso Celso
Certo dia me deparei com um anúncio um tanto quanto desesperador nos classificados de um jornal de quinta:
VENDE-SE UM ATOR-MENTADO, FORMADO EM ARTES TEATRAIS, DANÇA E FLUÊNCIA CÊNICA. EXPERIÊNCIA COMPROVADA EM ESPETÁCULOS. CONTATO PELO CELULAR [tal].
Por trabalhar com arte, tal venda me despertou interesse e resolvi ligar para saber o que levou tal pessoa a uma situação tão extrema.
De uma primeira vez, o número caiu direto numa caixa postal. Imaginei que aquela poderia ser alguma brincadeira de calouro, ou alguém pondo à prova a paciência de algum idiota que pudesse realmente ligar pra tal número.
De uma segunda vez, atende, para minha surpresa, uma mulher dizendo nada ter a ver com o anúncio, porém teve a boa vontade de me passar o novo número do antigo proprietário do celular que agora pertencia a ela.
Liguei então para o novo número, na esperança ainda de matar minha curiosidade de saber quem era esse “artista-produto”, que chegou ao ponto de oferecer seus serviços de forma tão direta em um classificado.
Tive sorte ao primeiro toque atender. Seu nome era Eduardo Eugênio Cândido Siqueira. E toda opulência de seu nome confirmava o que dizia no anúncio. Ele era realmente formado em artes cênicas com habilidades em dança e canto, com vasta experiência em palcos.
Marcamos mais tarde um café numa padaria qualquer de esquina para conversarmos melhor.
Chegando lá, durante toda a conversa em meio a pastas, fotos e recortes de jornal, pude perceber verdade e que ali realmente existia conteúdo. Em sua narrativa, além de me contar suas experiências cênicas, falou um pouco da sua insatisfação e, principalmente, da sua necessidade em tomar atitude extremas como sua venda. “- Preciso defender meu ganha-pão. A forma como eu faço isso, desde que seja digna, não me importa”. DIGNIDADE. O cara tocou num ponto que o qualificou em 100% em nossa aproximada 1 hora de conversa. E não só isso: seus argumentos, a forma de se posicionar e até mesmo um all-star velho no pé mostravam que ali tinha uma pessoa de personalidade batalhando por um ideal.
E dessa conversa toda, pude perceber como a sociedade desqualifica a arte ou ao menos a acha linda, mas não dá seu devido valor. Percebi que a história desse ator-mentado era o reflexo de muitos outros ativistas de arte que não conseguiam espaço, sendo obrigados a radicalizarem e trabalharem por qualquer trocado.
Daí, várias questões me vieram à tona e questionei quem seria o real culpado dessa realidade. De fato, a falta de incentivo às questões culturais ainda é uma realidade. E por mais que se apresentem profissionais qualificados, muito pouco se paga por cultura. Contraditório pra quem entende cultura como premissa fundamental na formação de um cidadão, mas em contraponto, o artista tem parte fundamental dessa culpa por não se posicionar, se valorizar como profissional e mostrar que seu trabalho é importante tanto quanto outros bem remunerados. E olha que no “Texas Brasileiro” o que não falta é gente ganhando muito para se fazer nada.
Por fim, terminamos o café sem muitas novidades. O retrato desse artista, pra mim, foi uma novidade apenas por questão de abordagem, pois nunca tivera visto anúncio de tal espécie no jornal. Mas a sua história se equivale a muitas outras, de pessoas que estão muito próximas e tem a arte como sobrevivência. E que sobrevivência!
* ATOR-MENTADO: título de uma comédia escrita por Rodrigo Rangel e Afonso Celso
Escrito em: 12/08/2008
Um comentário:
Bacana esse espaço! Escrever é sempre bom! Só estou curiosa pra saber ao certo o porquê de "Morangos Congelados"!
Eis uma frequentadora!
Super beijo Xiogu!
Luana Mendes.
www.luanamendes.blogspot.com
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