
"Let me take you down
Cause I'm going to
Strawberry Fields
Nothing is real"
Os morangos pareciam congelados, parados no espaço. Dizia Valéria, ainda sem saber que não eram só dela. Ficaria mais tarde conhecida por seus grandes cachos negros, que pareciam mais diamantes expirais presos ao centro do seu próprio universo pensante. Tirou da caixa um deles e tornou a fechá-la, assim como nas instruções do papel branco em letras vermelhas, que pedia a encaminhar ao próximo destino, que por acaso era o mesmo que o seu, com a simples diferença de um único número. Assim o fez, e ao voltar, um vazio enorme a possuiu repentinamente. Lembrara de sua amiga de passagens compradas, e que certamente deixaria ali tanto de si, que poderia ter certeza que sempre sentiria seu cheiro de verde estampado nos objetos e cores. Em sua cômoda observava imagens metálicas junto a lembranças fotográficas, algumas em preto e branco. Olhava de relances para a janela e via seu céu nublado, buscava o sol que andava escondido pelo mar inverso e acinzentado. Lá embaixo parava um caminhão, e de lá de cima, misturado a móveis e pessoas na calçada, enxergava cachos dourados também móveis por entre eles, ainda sem feições, definições ou intimidades. Mas os raios de sol tão anteriormente esperados nem chegavam a seus pés, pensava ela.
À exatamente dois dias e algumas horas dali, Tom abria a caixa pensando no que aquilo significaria. Parecia um morango congelado perdido num espaço de fitas gelatinosas e aromatizadas, e que, de certa forma, o fazia pensar no vazio de quem busca algo em si, dentro de conceitos incolores. Uma caixa na qual nada importava a não ser um pequeno morango que parecia ser feito de gesso. Examinou em sua estante um disco de prata e extraiu dele uma bela canção de violino. Sentado em sua confortável poltrona de somente um lugar, ele mantinha seu morango sobre a mão esquerda, pressionando entre os dedos como se quisesse que ele o invadisse por entre as digitais, seguindo a linha tênue desenhada pelo violino em sua cabeça. Ouviu então por de trás da sinfonia lúdica, sons opacos de madeira repetidos com urgência. Buscou identificar a hora daquele momento. Eram 15 horas, provavelmente seriam as meninas do outro lado da porta.
Em outros lugares ainda na mesma cidade, quatro outros morangos estavam devidamente guardados. Cada um no seu legítimo lugar de carinho.

